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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Beltrame: "O Rio não tem condições de acabar com a desordem que deixou acontecer"

Após dez anos no cargo, o ex-secretário afirma que as UPPs expulsaram criminosos, mas falta apoio do Estado para ocupar territórios de vez.

José Mariano Beltrame, o gaúcho que entregou o espinhoso cargo de secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro após um recorde de quase dez anos, diz que seu substituto, o delegado Roberto Sá, não foi apenas uma escolha pessoal sua. “Foi fabricado e produzido por mim e tem tudo para ser melhor do que eu”, afirma, em entrevista a ÉPOCA. “Está mais descansado.” O criador das UPPs defende seu projeto de todas as críticas e atribui o enfraquecimento da pacificação a omissões do Estado. “Não se pode usar a violência como desculpa: ‘Ah, eu não pude fazer a estradinha porque tinha um cara ali com um fuzil’. Mentira. Vai lá e faz a estradinha. Faz a urbanização. A paz exige o entrelaçamento de esforços”, diz. “Entrei, mas eles não entraram atrás. Meu temor é que agora se culpe a polícia de tudo. Joga pedra na Geni, que é fácil, que cola.” Beltrame diz que sai “com a consciência tranquila”, mas com uma tristeza: “Esperava deixar o Rio mais pacificado do que está”. Manterá seus seguranças, devido às 51 ameaças de morte que acumulou. Agora, deseja descansar com a família e ampliar seus horizontes para a iniciativa privada. Dará palestras em Harvard e Viena. Por enquanto, são gratuitas.

ÉPOCA – O senhor comparou as UPPs a uma corrida de revezamento, na qual se passa o bastão. Quantas vezes o senhor efetivamente pediu demissão?
José Mariano Beltrame – A UPP é só uma parte da corrida da segurança pública. E segurança é algo interminável, algo que você não vence totalmente nunca. Estamos sempre procurando antecipar situações, minimizar, mitigar. Eu tive ao longo desses quase dez anos momentos em que me deu vontade de passar o bastão, em que eu me sentia desiludido. Mas a minha vontade de fazer sempre foi maior que a de largar. O que estava determinado é que após a Olimpíada eu entregaria o cargo. Mas, como ainda queria ampliar o currículo de treinamento dos policiais de nove meses para 12 meses, preferi fazer isso antes de sair, para não correr risco.
 
ÉPOCA – O tiroteio na favela do Pavão-Pavãozinho em Copacabana e a queda de um bandido da encosta de um morro, na segunda-feira (10), foram a gota d’água para sua saída?

Beltrame – Absolutamente não. A UPP, na verdade, desafiou o Estado brasileiro, desafiou o município e a sociedade, desafiou o governo federal. O dever da segurança era de todos. Para dar um exemplo: na segunda-feira, no Pavãozinho, havia lá um cidadão que, em 2009, deu um tiro no Fernando Veloso [chefe da Polícia Civil que entregou o cargo um dia depois do Beltrame] com uma “ponto 30” [metralhadora semiautomática] e foi preso. Esse cidadão saiu em maio num indulto para aproveitar o Dia das Mães e nós ficamos cinco meses atrás dele. E segunda-feira nos encontramos e aconteceu o que aconteceu. Eu te pergunto: isso é problema da UPP? É problema da Polícia Civil? O problema são instituições que deveriam assumir o “dever e fazer” do Estado, mas não assumiram. O que me deixa agora meio assustado é ver ressurgir a velha retórica de se buscar um culpado. E aí é assim: “Atira na Geni, na PM, que cola”. Mas a PM ficou oito anos desafiando o Estado e nada aconteceu.

ÉPOCA – Quais foram as omissões do Estado na pacificação do Rio?
Beltrame – O Estado sabe que não tem condições de atender a população marginalizada, não tem condições de urbanizar, não tem condições de levar ordem a essas comunidades. O bandido é o único que quer a desordem. As pessoas querem ordem, querem poder estacionar um carro em frente de casa. Conheço gente na Rocinha que tem de botar a moto na sala da casa para não ser roubado! Então, meu medo é que, ao ver um tiroteio, que é muito ruim, se culpe a PM. Nós pegamos na segunda-feira seis fuzis internacionais, carregadores internacionais, com pessoas que tinham de estar presas. Tenho um temor de que se use a violência como desculpa para a omissão: “Ah, eu não pude fazer a estradinha porque tinha um cara ali com um fuzil”. Mentira. Mentira. Vai lá e faz a estradinha. Faz a urbanização. A paz exige o entrelaçamento de esforços. A verdade é uma só: o Estado do Rio não tem condições de acabar com a desordem que ele mesmo deixou que acontecesse décadas atrás. Então aí, é fácil jogar toda a culpa na polícia, esse é o alerta que eu deixo. A PM está fazendo sua parte. Prendeu novamente essas pessoas. E eu prefiro que Copacabana sofra esse problema duas noites e aí melhore, do que tenha um tiroteio uma vez por semana, como era antigamente.

ÉPOCA – Não é uma coincidência forte demais o senhor sair exatamente depois do tiroteio em Copacabana?
Beltrame – Antes desse tiroteio eu já estava na sala do Pezão falando de minha saída. Infelizmente sei que as pessoas tentam associar minha saída ao que aconteceu. Admito ser uma cena chocante, péssima para o Rio. Mas hoje [quinta-feira] tivemos troca de tiros na Cidade de Deus. Vai ter de novo. O tráfico não desistiu de tentar recuperar seu território e seu poder. Houve cenas muito parecidas com essa e a gente não saiu. Acho que todos precisam entender que são dez anos. De dedicação exclusiva, botando a Segurança acima da minha família, acima do interesse pessoal.

ÉPOCA – A falta de recursos para pagar salário de dezembro e 13º aos policiais contribuiu para sua saída agora? Na Polícia Civil, as delegacias estão até sem papel higiênico, policiais dizem que os prédios deveriam ser interditados.
Beltrame – Se crise financeira fosse motivo para sair, eu não teria nem assumido em 2007. Tive três meses de governo provisório. Foi muito ruim o início de 2008, o ano passado e agora também. Seria leviano se dissesse que a crise não influi no desempenho, no momento em que você não tem gasolina para levantar um helicóptero, não tem ração para dar aos cães, não tem dinheiro para manutenção de blindados que nossos policiais encontraram na África do Sul depois de correr o mundo. Isso tem um peso, claro, na qualidade do serviço público que se presta. Agora, eu enfrentei isso no início e desde o ano passado. Mas marquei minha saída para depois dos Jogos Olímpicos. Posso garantir que não foi o tiroteio no Pavão que determinou minha saída. Infelizmente, essa versão pode estar até rodando o mundo, mas não é verdade.

ÉPOCA – Imagino que fosse seu desejo deixar a Secretaria de Segurança com o Rio mais pacificado do que está. Mas sua saída coincidiu com um agravamento da violência e da insegurança na cidade e no estado.

Beltrame – Sim, eu queria que o Rio estivesse melhor do que está. Mas tenho a consciência tranquila, porque fizemos uma provocação para entrelaçar esforços. E isso significa entrelaçar o cumprimento do dever de todas as instituições. Vou me repetir agora: a gente deu uma anestesia num paciente que precisava de uma cirurgia. E essa cirurgia não foi feita ou foi mal feita, aos pedaços.

ÉPOCA – Quer dizer: a anestesia passou e a dor voltou?
Beltrame – A anestesia está passando, e as coisas não foram feitas. A polícia está sozinha, remando contra águas turbulentas, num barco do qual todo mundo pulou. E a polícia vai continuar a fazer seu papel. Porque ai do Rio de Janeiro se a gente der um passo atrás. O que aconteceu no Pavão iria acontecer muito em breve no Babilônia, no Chapéu Mangueira, no Tabajara. A gente antecipa muitas guerras de quadrilhas, mas todas não dá. O que a gente precisa no Brasil é de lei e ordem. Desordem nesses lugares só facilita bandido. Acho que a gente mostrou o rumo.

Confira a entrevista completa AQUI

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