Levantamento inédito com dados de satélite mostra que 84% da perda decorreu da aceleração das geleiras; degelo elevou o nível dos oceanos em três centímetros.
Cientistas calcularam pela primeira vez o volume total de gelo perdido pela Groenlândia e pela Antártica desde a década de 1970: 11,3 trilhões de toneladas. O levantamento, feito com imagens e dados de satélite, aponta que essa perda provocou um aumento de mais de três centímetros no nível global dos oceanos.
O estudo, publicado no jornal científico Scientific Data, analisou dados entre 1970 e 2023. Segundo os autores, 84% da perda total decorreu da aceleração das geleiras, que despejaram mais gelo no oceano, enquanto apenas 16% se deve ao derretimento superficial.
“Mais de quatro quintos do gelo perdido foram lançados no oceano por geleiras que se deslocam mais rapidamente, em vez de derreterem na superfície — o que nos indica que a tendência de longo prazo é impulsionada pela resposta dinâmica das camadas de gelo ao aquecimento do oceano”, afirma Inès Otosaka, pesquisadora da Universidade de Northumbria, no Reino Unido, e principal autora do estudo.
Aceleração a partir dos anos 1990
De acordo com a análise, a perda de gelo se intensificou a partir da década de 1990. Na Groenlândia, o declínio passou de 60 bilhões de toneladas por ano, nos anos 1980, para 264 bilhões de toneladas por ano, nos anos 2010 — período em que o país enfrentou alguns de seus verões mais quentes já registrados. Na Antártica, o mesmo fenômeno foi observado: a perda anual aumentou em 154 bilhões de toneladas ao longo de três décadas.
“Um aumento de três centímetros no nível do mar pode parecer pouco, mas isso coloca entre seis e nove milhões de pessoas adicionais em risco de inundações costeiras e erosão”, diz Andrew Shepherd, chefe da Escola de Geografia e Ciências Naturais da Universidade de Northumbria. “Com as camadas de gelo prestes a perder muito mais massa nas próximas décadas, avaliações globais como a nossa são vitais para proteger as comunidades afetadas pelas mudanças climáticas.”
Recordes negativos
Estimar o nível do mar e projetar sua variação futura segue sendo um dos maiores desafios da ciência do clima, mas os pesquisadores afirmam que a perda de massa das geleiras da Groenlândia é um dos principais fatores de aceleração do processo. A região tem registrado recordes negativos nos últimos anos: em 2019, cientistas documentaram uma temperatura mais de vinte graus Celsius acima da média na Groenlândia; em 2021, a camada de gelo local perdeu oito bilhões e meio de toneladas em um único dia.
Fonte: Diário do Poder











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