quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Exames em hospital na Alemanha confirmam que opositor russo foi envenenado

Ele disse ter recebido dezenas de ameaças e acusações.
Médicos alemães responsáveis pelo tratamento de Alexei Navalni confirmaram, nesta segunda (24), que o opositor do presidente Vladimir Putin foi envenenado por uma substância que atua no sistema nervoso. "Os achados clínicos indicam intoxicação por uma substância do grupo dos inibidores da colinesterase", diz o comunicado divulgado pelo Hospital da Charité, para onde Navalni foi transferido no sábado (22).

Os inibidores da colinesterase são drogas que podem aumentar a comunicação entre as células nervosas no cérebro. Geralmente são usados para melhorar temporariamente ou estabilizar os sintomas de pessoas com doenças cognitivas, mas, em algumas situações, podem ser tóxicos para o organismo.

Embora tenham afirmado que o ativista não corre risco de morrer, os médicos não descartaram a "possibilidade de efeitos a longo prazo, particularmente aqueles que afetam o sistema nervoso". Segundo o hospital, "o efeito do veneno foi confirmado por vários testes em laboratórios independentes". O diagnóstico contraria a versão apresentada pelos médicos russos, segundo a qual não havia vestígios de substâncias tóxicas nos exames feitos no ativista durante o atendimento na Rússia.

Navalni, 44, está em coma induzido e conectado a um respirador desde quinta (20), quando passou mal em um voo da Sibéria para Moscou. Familiares e aliados do opositor afirmam que ele foi vítima de um "envenenamento intencional", com "algo misturado a seu chá" enquanto estava no aeroporto de Tomsk.

Nesta segunda-feira, quando o envenenamento ainda era uma suspeita, a Alemanha ofereceu um reforço à segurança pessoal de Navalni, mencionando o histórico recente da Rússia com casos semelhantes de opositores de Putin que foram intoxicados. "Alguém envenenou Navalni, e o governo alemão leva essa suspeita muito a sério", disse Steffen Seibert, porta-voz da chanceler Angela Merkel, em uma entrevista coletiva nesta segunda-feira, justificando a proteção policial oferecida ao russo no hospital de Berlim. Segundo ele, o país recebeu o ativista por "questões humanitárias", atendendo a um pedido da família.

Médicos russos, por sua vez, disseram nesta segunda que o atendimento que Navalni recebeu ainda na Rússia foi fundamental para sua sobrevivência. "Nós salvamos a vida dele com grande esforço e trabalho", disse Alexander Murakhovsky, chefe do hospital em Omsk, cidade em que Navalni foi internado após um pouso de emergência. Segundo o médico, não houve nenhuma pressão externa ou interferência oficial no tratamento oferecido ao crítico de Putin.

Embora não tenha dado detalhes do que foi feito para tratar o opositor russo, outro médico sênior do hospital, em entrevista coletiva nesta segunda, voltou a descartar a hipótese de envenenamento. "Se tivéssemos encontrado algum tipo de veneno que fosse de alguma forma confirmado, teria sido muito mais fácil para nós", disse Anatoli Kalinichenko. "Teria sido um diagnóstico claro, uma condição clara e um curso de tratamento bem conhecido."

Ele disse ter recebido dezenas de ameaças e acusações. "Foi desagradável que jornalistas e médicos de renome internacional tenham feito comentários sem ter nenhuma informação." Para os russos, o quadro clínico mais provável era um "desequilíbrio glicêmico" provocado por um baixo nível de açúcar no sangue. Esse diagnóstico, porém, também foi rechaçado pela esposa do ativista, Iulia Navalnaia. Na sexta (21), ela escreveu uma carta com um pedido formal a Putin para que seu marido recebesse autorização para ser levado à Alemanha.

O tratamento fora da Rússia foi uma possibilidade oferecida por Merkel e pelo presidente francês, Emmanuel Macron, assim como um pedido de representantes da Comissão Europeia. A princípio, o Kremlin afirmou que estava pronto para considerar o tratamento no exterior, mas que a decisão cabia aos médicos responsáveis pelo atendimento de Navalni.

Estes, por sua vez, foram resistentes e alegaram que o estado de saúde do advogado não era estável o suficiente para a transferência.
Horas mais tarde, na sexta-feira (21), médicos alemães chegaram à Omsk, na Rússia, cidade onde Navalni estava internado. Eles também avaliaram a situação do ativista e concluíram que ele estava em condições de ser transportado.

Os russos então recuaram e autorizaram a transferência, feita por meio de um avião-ambulância fretado pela ONG Cinema for Peace. O diretor da instituição, Jaka Bizilj, já ofereceu o mesmo tratamento a outros adversários do Kremlin, vítimas de casos com circunstâncias semelhantes ao suposto ataque contra Navalni.

A transferência foi finalizada na manhã de sábado (22). Navalni foi internado no hospital da Charité, um dos mais prestigiados da Europa, "em quadro estável", segundo Bizilj. Ao jornal alemão Bild o chefe da ONG afirmou que Navalni sobreviveria, mas deve ficar impedido de atuar politicamente por meses.

A atenção que o ativista atrai e as circunstâncias de sua internação levam inevitavelmente à memória do destino de outros opositores e desafetos do governo russo. Ele mesmo foi vítima anteriormente. Em 2018, durante um protesto, foi atingido com uma substância tóxica verde que o deixou parcialmente cego de um olho por um tempo.

O Kremlin sempre negou qualquer associação a ataques contra opositores. A lista, contudo, acumula episódios -com um mórbido destaque à modalidade envenenamento.

Via Folhape

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